Uma onda de projetos multibilionários está transformando o panorama energético e agrícola do Brasil, com o etanol de milho se destacando como uma das apostas de crescimento mais acelerado no país. A abundância de milho barato e a demanda crescente impulsionam a expansão do setor, levando empresas a um novo ciclo de investimentos. A Inpasa, maior produtora de etanol de milho no Brasil, anunciou uma joint venture com a Amaggi, uma das principais traders de grãos do país, para construir pelo menos três novas plantas em Mato Grosso, o estado líder na produção de grãos. Esses projetos podem demandar até 6 bilhões de reais, equivalentes a cerca de 1,1 bilhão de dólares.
Em Goiás, vizinho a Mato Grosso, o Grupo Planalto planeja adicionar duas novas unidades com investimentos de 1,8 bilhão de reais, enquanto a São Martinho, gigante do açúcar e etanol de cana, destina 1,1 bilhão de reais para expandir suas operações de etanol de milho no estado. Mais ao sul, no Paraná, o Grupo Potencial projeta uma instalação de 2 bilhões de reais. Esses empreendimentos se somam a outros 21 projetos monitorados pelo Itaú BBA até julho, totalizando 23 bilhões de reais em investimentos.
De acordo com o banco, esses projetos podem elevar a produção de etanol de milho em mais de 50% em apenas dois anos, passando de 8,2 bilhões de litros na safra 2024/25 para 12,1 bilhões de litros em 2026/27. O consultor de agronegócios Carlos Cogo afirmou, em evento recente, que o país está criando o maior cluster agroindustrial visto nos últimos 30 anos.
O boom de investimentos se baseia em quatro principais impulsionadores, conforme Marcos Rubin, CEO da consultoria Veeries: o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina de 27% para 30% a partir de agosto; custos de implantação inferiores aos das usinas de etanol de cana; o crescimento da produção da safrinha, a segunda safra de milho; e opções de financiamento mais acessíveis para projetos de energia renovável. Até 2030, a produção de etanol de milho no Brasil deve saltar quase 80%, atingindo 16 bilhões de litros, segundo projeções da Veeries.
Essa expansão tornará o biocombustível a principal fonte de crescimento na demanda doméstica por milho, impulsionando a produção total do grão de 137 milhões de toneladas atuais, conforme dados da Conab, para 170 milhões de toneladas até o final da década. Carlos Cogo projeta um cenário ainda mais ambicioso: em dez anos, o Brasil precisará produzir 200 milhões de toneladas de milho para atender à demanda total, com o consumo do grão para etanol mais que dobrando, de 24 milhões para 53,3 milhões de toneladas na safra 2034/35.
Com as mudanças nos padrões de produção e consumo, os preços do milho também estão se alterando. Valores mais altos surgem no Centro-Oeste, região que abriga a maioria dos novos projetos de etanol. Neste ano, o milho de Mato Grosso é negociado a 90% dos preços do Paraná, estado que é polo de criação de aves e suínos e abriga o porto exportador de Paranaguá. Entre 2010 e 2018, antes do boom do etanol de milho, essa proporção era de 63%, de acordo com Rubin.