Energia

Etanol brasileiro aos 50: ambições políticas para um futuro descarbonizado

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Completando meio século de existência, o etanol brasileiro surge como peça central nas estratégias de descarbonização do país, impulsionado por políticas governamentais ambiciosas. O programa Proálcool, iniciado há 50 anos, evoluiu para incluir metas de expansão em combustíveis de aviação e marítimo, além de biocombustíveis como biodiesel, biometano, etanol de segunda geração e hidrogênio verde. Recentemente, na COP30, o Brasil, ao lado de Itália, Japão e Índia, lançou uma iniciativa para quadruplicar o uso global de biocombustíveis até 2035, destacando o papel do etanol como passaporte para o desenvolvimento sustentável no século XXI.

Políticas como o RenovaBio, criado em 2017 no embalo do Acordo de Paris, fomentam a produção por meio de créditos de descarbonização (CBIOs). Já a Lei do Combustível do Futuro, de 2024, estabelece metas de descarbonização para transportes, com mandatos crescentes de mistura de etanol na gasolina e biodiesel no diesel. O E30, que eleva a mistura para 30%, entrou em vigor em agosto, substituindo o E27 de 2015. Essas medidas visam estimular a demanda, considerando que 85% dos carros no Brasil são flex, mas apenas 30% dos motoristas optam pelo etanol.

Investimentos no setor sucroenergético focam em inovação para aumentar a produtividade da cana-de-açúcar sem desmatamento. Luiz Antonio Dias Paes, do Centro de Tecnologia Canavieira, aponta alavancas como genética, biotecnologia e novas formas de plantio. Plinio Nastari, da Datagro, enfatiza o potencial de conversão de pastagens, com 70 a 80 milhões de hectares disponíveis. Um estudo do Instituto MBCBrasil prevê que a demanda por etanol cresça 2,4 vezes até 2040, impulsionada por programas internacionais como o Fit For 55 na União Europeia e o Inflation Reduction Act nos Estados Unidos, além de mandatos em países como Índia, Japão, Indonésia e Filipinas.

Desafios incluem as mudanças climáticas, que ameaçam a produção agrícola, e questões geopolíticas, como a lei europeia antidesmatamento e tarifas americanas que afetam exportações. Adriano Pires, do CBIE, alerta para riscos de insegurança regulatória, com possíveis adiamentos de mandatos para conter inflação. O etanol de milho, com produção projetada para saltar de 8,2 milhões de litros na safra 2024/25 para até 24,7 bilhões em 2033/24, integra-se à cadeia de proteínas animais via subproduto DDG, mas levanta debates sobre excesso de oferta.

A concorrência com veículos elétricos divide opiniões. Enquanto Adriano Pires e Luciano Rodrigues, da Unica, defendem priorizar o etanol por sua menor emissão, Henry Joseph Júnior, da Anfavea, prevê convivência com híbridos flex, que devem representar 72% da frota até 2040. Projeções indicam 17,4 milhões de veículos eletrificados no Brasil nesse período, demandando R$ 25 bilhões em infraestrutura.

O combustível sustentável de aviação (SAF), produzido a partir de etanol e outras fontes, é visto como cereja do bolo. A Petrobras planeja investir US$ 4,3 bilhões em renováveis até 2026. Simone Souza, da Boeing, destaca o potencial brasileiro, mas alerta para custos três vezes superiores ao querosene fóssil, necessitando incentivos fiscais. O governo lançou o ProBioQAV em novembro, inspirado no Proálcool, para viabilizar o mercado e posicionar o Brasil como fornecedor global.

Gonçalo Pereira, da Unicamp, vislumbra um futuro onde o Brasil se torna uma grande biorrefinaria, aproveitando sol, água e solo para gerar empregos – 42 por unidade de energia bio versus um na fóssil. Luis Augusto Barbosa Cortez, também da Unicamp, nota avanços mais rápidos no combustível marítimo devido a menos restrições de segurança.

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