Clima

Brasil desperta para o potencial oculto do carbono no solo agrícola

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Apesar de ser uma potência agrícola mundial, o Brasil ainda ocupa uma posição modesta nos projetos voluntários de carbono no setor agrícola, revelando um potencial inexplorado no combate às mudanças climáticas. Dados da Voluntary Registry Offsets Database, compilados por pesquisadores da UC Berkeley, destacam a dominância da América do Norte e o crescente protagonismo de países do Leste Europeu na geração de créditos de carbono agrícolas. Em contraste, a América do Sul, incluindo o Brasil, quase não aparece nos gráficos, com projetos concentrados principalmente no setor florestal, onde o país divide a liderança com os norte-americanos.

Os solos armazenam três vezes mais carbono que a atmosfera e cerca de quatro vezes mais que a biomassa vegetal, segundo estudos como o Global Carbon Budget 2018. A erosão causada pela agricultura convencional cria oportunidades para práticas regenerativas que geram créditos de carbono. Uma revisão sistemática de literatura, publicada na Revista Brasileira de Ciência do Solo em 2023, indica que o manejo agrícola sustentável pode igualar os estoques de carbono no solo, em até 1 metro de profundidade, aos observados em áreas de vegetação nativa. Para comparação, pastagens apresentam, em média, 22% menos carbono que formações nativas em qualquer profundidade, sugerindo que práticas bem desenhadas promovem uma recarbonização parcial.

No entanto, o crescimento desses projetos no Brasil enfrenta barreiras significativas, como as dificuldades de mensuração, relato e verificação (MRV) dos estoques de carbono no solo. Diferentemente dos projetos florestais, onde o carbono na biomassa aérea é estimado com maior precisão, o carbono orgânico do solo exibe alta variabilidade espacial e temporal, agravada pela diversidade de biomas e sistemas agrícolas brasileiros. Essa complexidade torna desafiadora a implementação de iniciativas que dependem de dados precisos para atrair investidores.

Outra barreira é a adicionalidade, que exige que as reduções de emissões ou remoções de carbono só sejam viáveis por meio das receitas de créditos. No Brasil, práticas de baixo carbono, como o Sistema Plantio Direto, já são adotadas por razões agronômicas em mais de 80% das propriedades, segundo algumas fontes. No entanto, críticas apontam para a aplicação incompleta desses princípios, criando o fenômeno do “pseudo-plantio direto”, o que complica a demonstração de que as práticas não ocorreriam sem incentivos financeiros.

Para superar esses obstáculos, o desenvolvimento de ferramentas tecnológicas, como o VT0014 da Verra para mapeamento digital de solos, visa reduzir custos de monitoramento e incluir pequenos e médios produtores, potencialmente alterando o debate sobre adicionalidade. A aprovação da Lei 15.042/2024, que estabelece o marco regulatório do mercado de carbono brasileiro, pode trazer clareza e impulsionar o setor. Além disso, veículos de investimento como o Eco Invest Brasil, o Fundo Clima e fundos para conversão de pastagens degradas atuam como catalisadores financeiros.

Thiago Gil, colunista e diretor da Cordiant Capital, enfatiza que o agro brasileiro só se tornará protagonista ao transformar narrativas em métricas auditáveis. Sem MRV eficaz, não há créditos viáveis; sem créditos, não há escala. Quem liderar na mensuração, padronização e comprovação de adicionalidade capturará os benefícios e definirá padrões para o carbono agrícola nos trópicos.

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